Sigilo médico e a inarredável curiosidade humana

Uma das coisas que aprendi logo cedo na profissão é que segredo médico é coisa séria. Talvez pelo fato do sigilo ser especialmente importante na psiquiatria. Todos podem se consultar com clínicos gerais, dermatologistas, ortopedistas, e afins. Pressão alta, uma mancha na pele, um joelho que dói. Agora se você vai ao psiquiatra, a imaginação alheia dispara. Da mais grave “loucura” às psicopatias, os rótulos são sempre os piores. Infelizmente frequentar um profissional de saúde mental ainda é visto com preconceito por muita gente, e daí o cuidado redobrado com o manuseio da informação. Inclui, por exemplo, a aparente falta de educação ao encontrar um paciente em local público e, percebendo que o mesmo te ignora, fingir que não o conhece. Pois se você faz questão de mostrar sua polidez britânica e vai lá cumprimentá-lo a esposa pode perguntar espantada “De onde você conhece um psiquiatra?” Estes dias mesmo ligou uma pretensa senhorita de uma pretensa seguradora, pedindo um relatório detalhado de um pretenso paciente. A secretária, já bem treinada, disse “Quem? Ele passa aqui?” Ou aquele conhecido do paciente que marotamente pergunta, “e fulana, como está indo, tem ido às sessões, muito problemática?”   As tentativas de invasão às vezes são mais escancaradas. O pai do paciente que, subrepticiamente aparece na porta do consultório: “vim para que o senhor me diga o que ele tem falado. Ele não pode saber que eu vim aqui!” É o contrário. Ele vai saber que você esteve aqui, e você não vai saber o que ele falou.

E foi em um destes vazamentos que uma doutora do Sírio se deu mal. Vazou informações da ex-primeira dama que viralizaram nos aplicativos de mensagens de celular, e com isso perdeu o emprego. Não há como defender o que fez. Quando vi que estavam divulgando a tomografia da dona Marisa, pensei que era uma tremenda falta de respeito com a moribunda. Quando vi que vários grupos de whatsapp estavam propagando a imagem, pensei que aquilo daria um baita problema. Dito e feito. Agora, nos últimos dias, resolução do Conselho Federal de Medicina circula, dizendo o óbvio, aquilo que nunca deveria ter sido esquecido e que faz parte da formação de qualquer médico; proteger o sigilo do paciente, mesmo nos aplicativos. Aliás, pior do que a fofoca da boca miúda é a do aplicativo, que deixa registradas as palavras.

Por outro lado: quem nunca teve esse tipo de curiosidade? Quem, para o bem ou para o mal, não queria saber detalhes secretos, privilegiados, do estado de saúde da dona Marisa? Se a imagem viralizou não foi porque a médica passou o dia inteiro divulgando as informações, mas sim porque muitos deram forward. Aliás, ela compartilhou as informações em um grupo de médicos, que em teoria deveriam guardar o segredo. Não justifica, mas talvez amenize; enfim, ela não era médica do caso, e mesmo se fosse não caberia tal compartilhamento. Não seria para discutir o caso e achar uma conduta para o mesmo. Só pra matar a curiosidade? Não, não pode… Outrossim, se hipoteticamente a imagem e as informações tivessem “parado” no jornal de alguma maneira, sem intermediário médico, zeladores das informações privadas de saúde, seria um furo de reportagem e não uma infração ética.

Aliás, alguém sabe do Schumi? Uma foto não autorizada tirada do piloto após o acidente de esqui está sendo oferecida por 1 milhão de Euros aos meios de comunicação.

Sim, somos curiosos. A curiosidade é algo humano que muitas vezes briga com nossa ética pessoal, com a moral. É um desejo que, em respeito ao próximo, tem de ser frustrado muitas vezes. Assim, com relação à médica do Sírio, engana-se quem acha que se trata apenas de uma grave infração ética. Por trás da satanização da médica, da repercussão exagerada que o caso tem recebido, das mensagens de ódio contra ela que tem sido propagadas, há também um auto-exorcismo da curiosidade que nos é inerente, e da frustração que advém ao não satisfazê-la.

Isso sem entrar na seara política.

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