Presos são bonzinhos?

 Não. Boa parte deles não é. Se concebermos o termo “bonzinho” como alguém pacífico, com empatia pelas pessoas, responsável e honesto, definitivamente não o são.

Uma revisão sistemática publicada em 2002 no Lancet, um dos periódicos de maior impacto na medicina, analisou 62 estudos sobre distúrbios mentais graves na população carcerária de 12 países. No total somaram-se 22.790 prisioneiros. Verificou-se que a taxa de transtornos psiquiátricos nesta população é muito alta. Enquanto que a prevalência de psicose e depressão em homens girava em torno de 4 e 10%, respectivamente, quase metade da população carcerária do sexo masculino tinha transtorno de personalidade antissocial (47%). Ou seja, a prevalência deste último é dez vezes maior nos presos do que na população geral.

Segundo o DSM-5 fazem parte dos critérios diagnóstico deste distúrbio, dentre outros: a) falta de empatia, falta de preocupação com o outro, ausência de remorso após ferir ou maltratar o outro; b) comportamentos desonestos; c) impulsividade; d) hostilidade, sentimentos persistentes ou frequentes de raiva, irritabilidade em resposta a pequenos insultos. E o que acontece quando se trancafia pessoas assim em celas superlotadas?

Pelo que observei nos últimos dias a discussão se enveredou por diversos caminhos. Há quem diga que se prende muito no Brasil. Alguém vai enchendo um cesto de maçãs estragadas, e quando este cesto transborda exclama: “A culpa não é do cesto que é pequeno. Eu que recolhi maçãs demais”. Outros dizem que boa parte das pessoas que está nas cadeias é inocente. Não sei, eu não colocaria minha mão no fogo… Outros culpam o sistema penal brasileiro, e assim por diante. Sou leigo neste assunto, e me esquivo de discutir tais temas por receio de pronunciar inverdades.

Não obstante, do ponto de vista psíquico, colocar pessoas com tais características de personalidade em celas superlotadas para mim é a mesma coisa que trancar leões famintos dentro de um açougue. Sim, há o crime que as pessoas cometeram, elas estão erradas. Há a barbárie das decapitações, dos esquartejamentos, a perversidade, a crueldade. Se o antissocial tem ou não tem prazer com isso realmente não é o X da questão. Vale lembrar que, contraditoriamente, há antissociais com grande sucesso profissional. É o que mostram outras controversas pesquisas, apontando que o cargo de CEO é o que mais frequentemente abriga pessoas com o distúrbio. Estas pessoas são perversas? Cruéis? Frias e calculistas? Podem ser. Mas nem por isso saem por aí esquartejando seus subordinados.

A questão não está no fato de em grande parte serem ou não antissociais. A questão primordial é em como estão eles recluídos.

Por outro lado, também não se trata aqui do outro extremo, o de defender os presos, dizendo que a ocasião fez com que cometessem tais atrocidades. Não mesmo. Se fossem 50 monges budistas enclausurados em uma cela de 20 metros quadrados muito provavelmente nenhuma gota de sangue cairia. Eles têm culpa sim, claro. Têm um distúrbio de personalidade, mas isso não os inocenta, de maneira alguma. Vide pessoas com distúrbio e com sucesso.

Mas se por um lado têm culpa e responsabilidade pelo que fizeram, por outro também é de enorme irresponsabilidade ensardinhar antissociais em presídios e esperar que tudo transcorra na mais perfeita paz e harmonia. É um erro que salta aos olhos. Há a parcela inegável de culpa dos governantes. E para coroar a irresponsabilidade e omissão com a situação carcerária, ordenam as suas polícias e forças de controle que ajam com extrema negligência. Antes de gerar um novo Carandiru, culpando a polícia e o governo, deixam este novo Carandiru acontecer pelas próprias mãos dos presos, isentando-se de culpa.

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