Estudo mostra que atendimento psiquiátrico pela web é viável

De início achei meio estranho. Desconfortável. Eu, que sempre prezei pela psiquiatria mais oldschool dos grandes psicopatologistas, estava hesitante em tomar parte na pesquisa e atender pacientes pela internet. Onde havia ficado o Praecox Gefühl, o diagnóstico por intuição que fazemos pelo mero contato com o paciente? Seria possível fazê-lo pela webcam? Paradoxalmente a imagem na tela do computador dá uma constrangedora impressão de proximidade, de intimidade. Talvez porque estejamos habituados a reservar esta via para conversas com amigos mais próximos e parentes. Por outro lado, podemos deixar de captar nuances de expressão facial e corpórea daqueles que conhecemos há pouco tempo. Muitas preocupações, barreiras, empecilhos.

Isso no começo.

Mas depois passa.

Uma pesquisa realizada no Instituto de Psiquiatria (HC-FMUSP) comparou o atendimento psiquiátrico presencial com o atendimento pela web durante 12 meses. Cento e sete pacientes foram aleatorizados em dois grupos: enquanto um recebia consultas presenciais uma vez por mês, o outro recebia atendimento presencial na primeira, na sexta e na última consulta, sendo o restante das consultas feitas por Skype. A ideia era averiguar se havia diferença entre as duas modalidades de atendimento. Ao término da pesquisa os dados mostraram que os dois grupos apresentaram melhora semelhante no estado mental, com os escores de depressão caindo significativamente em ambos. Aliança terapêutica e satisfação com o tratamento também foram iguais nos dois grupos ao final do estudo. Surpreendentemente, a adesão ao tratamento foi melhor no grupo de web-atendimento. Houve maior número de desistências no atendimento presencial (número que chegou a ser estatisticamente significante em alguns momentos do estudo), e as pessoas deste grupo tendiam a faltar mais.

No Brasil o atendimento psiquiátrico pela internet ainda não é autorizado pelo Conselho Federal de Medicina. Não obstante, o estudo acima apresenta um importante passo para a validação desta modalidade de assistência. Em uma cidade caótica como São Paulo, onde pode se levar horas para ir de um bairro a outro em horário de pico, é importante que possamos lançar mão da tecnologia para ajudar no tratamento. O atendimento por webcam também pode ser importante para pacientes que estabeleceram uma boa aliança com o médico e que precisem viajar para fora do estado ou do país. Muitas vezes os emigrantes sofrem com a solidão do choque cultural, e o contato com aquele que o atendia em sua terra natal pode ser um importante ponto de suporte. Por fim, a internet pode auxiliar nos diversos quadros onde o isolamento social impede que o indivíduo dê continuidade ao seu tratamento. Tais casos são representados mais agudamente pelos hikikomoris, termo de origem japonesa utilizado para designar jovens com comportamento de extremo isolamento social.

Entretanto, algumas ressalvas devem ser feitas. Acho de importância vital que, antes de se usar tal ferramenta tecnológica, se conheça bem o paciente. De fato algumas coisas não são “transmissíveis” pela internet, como as diversas impressões intuitivas que temos pelo contato visual com o paciente. A webcam, por melhor que seja, não deixa de ser um filtro que inevitavelmente quebra algumas destas impressões. Outra importante ressalva a ser feita é que a pesquisa recrutou pacientes com quadros leves. Em quadros graves pode haver uma série de questões práticas que talvez possam inviabilizar o tratamento por esta modalidade. Mas isso apenas pesquisas futuras poderão mostrar.

O mais conservador pode abominar a ideia de atender pela webcam, eliminando o contato olho-no-olho, abrindo mão do “diagnóstico atmosférico” feito pela intuição. De fato a internet não substitui o contato pessoal, não podemos prescindir da presença da pessoa para que possamos entender em profundidade seu estado psíquico (por exemplo atendendo pessoas exclusivamente pela internet). Mas devemos lançar mão deste recurso quando necessário. Quando as circunstâncias do quadro e da vida moderna impede a presença, devemos usar os recursos desta mesma vida moderna para nos ajudar a cuidar.

 


 

Ref.: Hungerbuehler I, Valiengo L, Loch AA, Rössler W, Gattaz WF. Home-Based Psychiatric Outpatient Care Through Videoconferencing for Depression: A Randomized Controlled Follow-Up Trial. JMIR Ment Health. 2016 Aug 3;3(3):e36. doi: 10.2196/mental.5675.

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