Natal dá depressão; lenda urbana?

 Corre por aí a lenda urbana de que no Natal muitas pessoas se deprimem. Conversando com colegas de profissão a impressão se repete: a de que muitos pacientes ficam mal nesta época. As celebrações de final de ano em geral mexem com nossos sentimentos. A necessidade de estar reunido com a família nesta ocasião pode lembrar-nos de algum ente querido que não está mais lá, atiçar intrigas e conflitos familiares, provocar nossa solidão, causar-nos rebeldia pela obrigatoriedade de se cumprir um script cultural de se ajuntar a pessoas que, apesar de família, muitas vezes pouco conhecemos. Ademais, o final do ano traz a perspectiva de mudança, mas também pode nos lembrar das coisas que não fizemos no Ano Velho, de nossos erros, do que perdemos, e assim por diante. Reflexões frequentemente não muito bem vindas. Apesar de ser um período teoricamente mais friável aos distúrbios mentais, pesquisadores foram verificar se a lenda urbana de fato procedia.

Randy e Lori Sansone fizeram um levantamento na literatura sobre o assunto. Com relação à utilização de serviços de psiquiatria (emergência e internação), observaram que vários relatos indicavam uma diminuição no uso dos serviços na semana anterior ao Natal, seguido de um aumento equivalente após o feriado. Os poucos trabalhos sobre a incidência de transtornos do humor descrevem pessoas frequentemente associando o Natal ao sentimento de depressão. Interessantemente, um dos fatores mais prevalentes nas depressões de Natal era a fantasia de que todo mundo estava aproveitando o dia-santo, curtindo relações amorosas com seus familiares – claramente um mito, um desejo, mas não necessariamente um fato. No tangente ao uso de substâncias, evidências mostram um sólido aumento no abuso de álcool e cocaína. Mortes relacionadas ao álcool tem um pico na data também. Porém, suicídios e comportamentos auto-lesivos mostram uma queda acentuada nas semanas próximas ao Natal. Alguns poucos estudos mostram um rebote após o feriado, mas a grande maioria relata uma queda consistente no mês de dezembro.

Os pesquisadores concluem que há duas grandes tendências no Natal: a de aumento de uso de substâncias e de distúrbios de humor, e a de diminuição do uso de serviços de psiquiatria e de tentativa de suicídio e comportamentos auto-lesivos. A lenda urbana, destarte, procede, mas apenas em partes.

Se por um lado a questão familiar no Natal pode desencadear instabilidades no humor, o espírito natalino, por outro lado, parece oferecer certo respaldo, impedindo que pessoas procurem serviços de emergência e que atentem à própria integridade física.

Em outras palavras: Natal pode não ser a melhor época do ano para muitos, mas sobreviveremos a ele.


Ref.: Sansone, RA, Sansone, LA, 2011. The Christmas effect on psychopathology. Innov Clin Neurosci 8(12).

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