Por que somos tão desatentos hoje

 Hoje em dia as queixas de falta de atenção são muitas. As pessoas frequentemente buscam remédios, fórmulas mágicas, hábitos, exercícios que melhorem a atenção. As “ondas diagnósticas” da psiquiatria também influenciam esse comportamento. Se recentemente o autismo entrou em moda, diagnósticos como o distúrbio bipolar e o TDAH são outros que também contaminam o imaginário popular na atualidade. Por um lado aumentam o diagnóstico de casos reais; mas por outro geram sobrediagnóstico de condições normais.

Muitas vezes atribui-se a falta de atenção a uma incapacidade própria de se fazer a tarefa. Como se a dificuldade da empreitada atrapalhasse a atenção. Ou como se fôssemos por algum motivo incapazes de prestar atenção em determinado assunto. Não obstante, o que escapa às pessoas às vezes é que as exigências do mundo moderno são cada vez mais diversas. E com uma miríade de tarefas a fazer, fica cada vez mais difícil engajar o cérebro adequadamente em cada uma.

Pesquisa confirma observações intuitivas de que a possibilidade de uma pessoa se distrair em uma tarefa depende da vontade dela própria de se distrair. Ou seja, a capacidade para se concentrar e se disciplinar em uma tarefa é maior quando o indivíduo está interessado. A motivação do indivíduo é tão importante para sustentar a atenção quanto a facilidade para fazer a tarefa.

Autores de um estudo publicado no Journal of Experimental Psychology elaboraram uma série de experimentos para avaliar se a atenção de uma pessoa diminui conforme a dificuldade de uma tarefa aumenta. Um dispositivo de monitoramento ocular media a frequência, velocidade e foco dos olhos dos participantes conforme eles realizavam problemas matemáticos. O resultado foi que quanto mais fáceis eram os problemas, mais o participante se distraía. Este fato vai contra alguns paradigmas neuropsicológicos que dizem que quanto mais difícil a tarefa, maior a chance de se distrair. Isso sugere que o foco em tarefas mentais complexas engaja mais o cérebro e reduz a sensibilidade a eventos no mundo não relacionados à tarefa. Eles chamam este conceito de “cegueira não intencional”. Cegueira a estímulos externos que possam gerar distração. Este achado levou os pesquisadores a acreditarem que a capacidade de evitar a distração em uma tarefa depende mais da motivação da pessoa em fazer a tarefa do que da dificuldade da tarefa em si.

É provável que diversos casos de falta de atenção sejam secundários a quadros psiquiátricos como distúrbios depressivos ou ansiosos, ou até mesmo a quadros de TDAH de facto. No entanto, muitos deles também são fruto de um excesso de tarefas designadas a um único indivíduo e à sua incapacidade de lidar e de se dedicar adequadamente a tais tarefas. Decorrência dos tempos modernos, das demandas crescentes e muitas vezes incompatíveis, dos prazos, das metas, e assim por diante. Do exagero.


Ref.: Buetti, S., & Lleras, A. Distractibility is a function of engagement, not task difficulty: Evidence from a new oculomotor capture paradigm. (2016). Journal of Experimental Psychology: General, 145(10), 1382–1405. doi:10.1037/xge0000213

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