Psicológico ou biológico? O fim das torcidas organizadas

brain soccer image Pacientes e profissionais de saúde muitas vezes têm esta dúvida. Mas quando uma pergunta destas é feita, o que se infere através dela é a presença de uma cisão. Significa que, na maioria das vezes na cabeça de quem pergunta, ou é uma coisa ou é outra. Ou é psicológico ou é biológico. Opções mutuamente excludentes. Muitas vezes também o interlocultor sequer nota que sutilmente emprega conceitos diferentes para a compreensão de um único e mesmo objeto, a mente humana.

A origem de tal cisão é bastante antiga. O entendimento da mente humana sempre oscilou entre um dualismo (psicológico versus biológico, em suas mais diversas variações), e um monismo (corpo e mente são uma coisa só). Mas o que herdamos até hoje vem muito da filosofia cartesiana. O “penso, logo existo” de Renée Descartes em seu livro “Meditações Metafísica” cimenta filosoficamente uma separação entre mente e corpo. O pensamento é soberano sobre a existência humana. Mesmo que os sentidos sejam alterados pela loucura, o simples fato de pensar, da reflexão, já é suficiente para que se dê a existência.

Amiúde, entender que um quadro psíquico é uma coisa ou outra significa conceber que a mente é separada do corpo. Pois, ou só a mente está afetada (distúrbios psicológicos), ou só o corpo está afetado (distúrbios biológicos). As consequências disso são diversas. Uma das mais importantes é o dogmatismo que sempre tomou conta das ciências da saúde mental. Psiquiatras biológicos fanáticos levantando a bandeira da biologia, super-medicando seus pacientes e dizendo que terapia é bobagem. Psicólogos apaixonados orientando a suspensão de medicação, entendendo que elas viciam e fazem mal, e concebendo aquilo como “estritamente psicológico”. Paralelo rasteiro, os dogmáticos são as torcidas organizadas da saúde mental: radicais que só fazem mal para aquilo que gostam.

Entender que as aflições da alma são uma coisa ou outra implica também em diferentes tipos de estigma. Imputar a doença mental exclusivamente aos genes faz com que no imaginário popular o portador seja eximido da culpa de seus comportamentos. Não obstante, o entendimento deterministicamente genético da doença faz com que as pessoas sintam medo do afligido. Pois genes alterados trazem a ideia de descontrole, de periculosidade, de medo. “Coisifica-se” o paciente, como se fosse um animal irracional portador de uma doença genética. Por outro lado, o entendimento exclusivamente psicológico das doenças muitas vezes culpa o indivíduo. “A depressão é culpa dele”, ou, alternativamente, “estou deprimido pois sou fraco”. O caráter estritamente psicológico de doenças psíquicas é associado a falhas culpas morais, como o “é frescura”, ou “ele precisa é trabalhar”, etc. Dogmatismos gerando reações descompassadas, extremadas, e preconceituosas.

Em filosofia da mente, com as neurociências e a descoberta da plasticidade cerebral, entendem-se hoje os transtornos psíquicos como alterações de uma psique (psicossocial) fundada em um cérebro (biológico). É inadequado pensar que uma pessoa faça terapia e negar que este procedimento esteja mudando sua estrutura cerebral. É ingênuo pensar que a perda de um ente querido não tenha a capacidade de mudar a neuroconexão do indivíduo. É errado imaginar que alterações orgânicas como o hipotireoidismo não vão alterar traços já presentes na personalidade da pessoa.

Sim, há casos onde só se faz necessária a terapia. Mas isto não significa que a neuroconexão não foi afetada; só significa que ela não precisa ser medicada. Assim como há casos onde sem o remédio a coisa não funciona. Mas isso também não significa que somente ele seja suficiente.

Quando se medica alguém, não se está a decretar que aquela afecção é estritamente orgânica. Da mesma forma, quando alguém entra em terapia, não se está a dizer que aquilo tudo é psicológico, sem repercussão neuronal. Os limites são mais fluidos, os conceitos são inclusivos, e não excludentes.

É por isso que apoio a proposta de acabar com as organizadas e criar uma torcida única.

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