O Whatsapp e as dependências comportamentais

whatsappNos atuais tempos de rapidez, excessos e repetição, um novo ingrediente começa a fazer parte do nosso dia-a-dia: as dependências comportamentais.

Muitos dizem que elas são uma falácia. Reforçados pelo discurso codificador das novas tendências impostas pelo DSM 5, argumentam que não passa de mais um destes novos diagnósticos destinados a patologizar cada vez mais o comportamento humano. Outro instrumento para formatar o homem em algo com repertório cada vez mais restrito, apontando como desvios e transtornos aquilo que sai fora da curva.

Mas aí morre um gamer no Japão, por ter ficado diversas horas em frente ao monitor sem se alimentar ou ingerir líquidos. Ou então você conhece aquele pai de família que perdeu tudo no jogo. Ou aquele adolescente que perde o ano letivo por ter passado as noites na internet, não conseguindo levantar-se de manhã para ir à escola.

A parte de querelas relativas à forma de diagnóstico em saúde mental (também discordo de muitas coisas do DSM 5), temos de admitir que as dependências comportamentais estão por aí. Há quem diga que não se poderia empregar o termo dependência quando não se ingere nenhuma substância. Mas cientistas defendem o seu uso, já que o mecanismo cerebral ativado é o mesmo dos casos de dependência de drogas.

Enfim, chame isso como quiser: quem não sentiu um pouquinho de abstinência e proferiu impropérios contra o juiz que pediu para suspender o Whatsapp nos últimos dois dias?

O bloqueio fez falta a todos. Mas apesar dos memes e das piadas na internet, algumas pessoas de fato entraram em abstinência (sem aspas, pois as dependências comportamentais envolvem mecanismos semelhantes ao das drogas, como tolerância e abstinência).

Com relação ao tipo de pessoa mais vulnerável à dependência de mensagens de texto, um estudo publicado em 2014 traz dados interessantes. Os autores verificaram que o Whatsapp era utilizado predominantemente para socializar com amigos e família, para encontrar informação e buscar entretenimento. Não obstante, 32% dos participantes usavam o aplicativo mais de 12 vezes por hora, e 53% julgaram-se dependentes do programa. Os fatores que impulsionavam ao seu uso mais pesado eram dois. O primeiro dizia respeito às pessoas mais extrovertidas. Elas obtém mais energia através de contato social e o Whatsapp acaba sendo uma ferramenta interessante para que elas ganhem sua “recompensa social”. O segundo fator relacionou-se à fobia social. Na fobia há medo, há proibição, um receio do contato social, mesmo que este seja desejado. Pessoas socialmente mais fóbicas tendem a usar mais o aplicativo como maneira de burlar as barreiras habituais do contato face-a-face. Assim, os mais vulneráveis ao uso pesado de mensagens de texto seriam os “shy extroverters”.

No que diz respeito aos malefícios do uso pesado de Whatsapp, outro estudo feito no Japão observou que dependentes de mensagens de texto prestam atenção excessiva às mensagens. Como é uma comunicação assíncrona, tendem a experimentar sensações de rejeição e isolamento quando não recebem de pronto uma mensagem-resposta (recompensa), fazendo com que o sentimento de ostracismo possa aumentar. Também verificaram uma associação entre dependência de mensagem de texto e depressão, por duas vias. Na primeira, o uso excessivo de mensagens poderia remodelar a maneira como uma pessoa interagiria socialmente, sendo um dos muitos fatores a desencadear quadro de depressão. Por outra via causal, usuários deprimidos podem recorrer à comunicação por texto para construir um novo self, aumentando assim o seu uso.

Não é necessário dizer que o Whatsapp facilitou a vida de muitos, e que a grande maioria faz um uso sadio do aplicativo. Mas sim, há casos extremos onde tal comportamento, em indivíduos susceptíveis, vira doença. Virar ou não doença é questão de grau. O casal na mesa do restaurante que troca o diálogo pela digitação. O show que não é mais visto pelo corpo presente mas sim pelas lentes de um eletrônico a grava-lo. O uso patológico destas mídias eletrônicas nada mais é do que epifenômeno do vazio das relações e dos sujeitos na sociedade da rapidez, dos excessos e da repetição.

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