H1N1: epidemia viral e psicológica

sofTrabalho em um hospital público e anualmente há campanha para vacina contra a gripe. Em todos os anos anteriores os pontos de vacinação espalhados pela instituição ficavam às moscas. Os atendentes abordavam ativamente os funcionários pedindo que eles se vacinassem, e não adiantava muito. Neste ano, filas enormes.

A vacina contra a gripe sempre foi motivo de controvérsia e estudo mundo afora, principalmente depois do surto global de H1N1 em 2009. Sua eficácia é muitas vezes questionada, reforçando comportamentos “antivacinais”. Estes, por sua vez, ocorrem principalmente por meio de dois mecanismos; o primeiro deles é o do medo injustificado. Contribuem para o medo a falta de informação adequada sobre a necessidade da vacina e a percepção de vulnerabilidade social, por exemplo. Populações com menor nível educacional e socioeconômico estão mais sujeitas a este medo, segundo as pesquisas. O outro provável mecanismo pelo qual as filas de vacinação contra a gripe estavam vazias em anos anteriores é o da anuência à cultura de risco. Em uma cultura de risco as pessoas são levadas a acessarem a todo instante riscos e benefícios de seus atos, principalmente no que tange à saúde delas. Tendem a se auto-empoderar, procurando com mais frequência informações na internet, e a desconfiar mais da ciência, receando haver apenas busca de lucro por parte das indústrias farmacêuticas.

Mas o cenário inverteu-se e observa-se hoje o que muitas vezes acompanha uma epidemia por agente infeccioso, que é a epidemia psicológica. O medo injustificado pulou da atitude anti-vacinal para seu exato oposto, uma busca desenfreada por dispositivos de saúde.

Um estudo realizado no México mostrou que durante a pandemia de H1N1 de 2009, 63479 casos foram relatados como suspeitos de H1N1. Não obstante, apenas 6945 (11%) eram de fato da tal gripe. Ademais, destes 11% de casos verdadeiros, 63 pessoas morreram (<1%). Há uma população de risco de crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas que têm uma chance maior de padecer fatalmente pela doença. O restante experimenta uma gripe comum.

O novo surto de H1N1 provocou um frenesi na população que busca desesperadamente vacinas e enche os prontos-socorros com casos “suspeitos”. No primeiro cenário lotes de vacinas esgotam-se em poucas horas em serviços particulares, e pessoas chegam horas antes destes abrirem para pegar senha. É uma certa moda, e assemelha-se muito às filas do consumismo de exposições e eventos culturais inéditos e disputados da cidade. No segundo, medo e insegurança tornou a vida dos socorristas um verdadeiro caos. Hospitais lotados, filas de espera, pessoas expostas ao contágio.

Neste mesmo México, onde apenas um décimo das suspeitas de H1N1 de fato eram casos positivos, o efeito das vacinas em pessoas que já a haviam feito foi questionável. O que mais surtiu efeito foi reduzir a circulação de pessoas (paralisar escolas, por exemplo). Ou seja, a pessoa que busca um pronto-socorro por medo de H1N1 pode acabar ganhando o vírus lá mesmo.

Sabe aquele dito popular que fala que de tanto você pensar em uma coisa ela acontece? Pois é, no caso do H1N1, isso pode ser verdadeiro.

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