As muitas dúvidas sobre o Zika

ZIKA-CLOSE-UPComo sabemos que determinado agente é causador de uma doença? Na epidemiologia em geral utilizamos os critérios de Hill para estabelecer esta ligação. São em número de nove, e envolvem força da associação, consistência, temporalidade, plausibilidade e reprodutibilidade, entre outros.

No ano de 2015 assistimos no Brasil ao começo da epidemia da infecção pelo vírus Zika, com diversos casos da doença diagnosticados no nordeste. Este pico de incidência da doença foi acompanhado por um aumento paralelo nos casos de microcefalia em bebês de gestantes contaminadas. Há uma associação temporal entre o aumento do contágio pelo Zika e o aumento de casos de microcefalia. Mas o que intrigou os pesquisadores foi que em outras regiões do mundo há também endemias do vírus Zika sem um aumento correspondente na ocorrência de microcefalia. É o caso da Colômbia; recentemente o governo colombiano relatou que mais de 3000 gestantes foram contaminadas pelo vírus, mas não observaram nenhuma associação com a microcefalia. Por outro lado, na Polinésia Francesa houve também um surto de infecção pelo Zika igualmente acompanhado por casos de microcefalia.

Por que algumas epidemias pelo vírus geram microcefalias e outras não? Não se sabe. Mas a partir desta dúvida muito se questionou se o vírus de fato seria o causador da malformação. Houve uma associação temporal (no Brasil e na Polinésia Francesa, aumentos simultâneos de Zika e microcefalia), mas não houve consistência (na Colômbia o mesmo não ocorreu). Outras hipóteses surgiram, até a de que a responsável pela microcefalia seria uma vacina.

O vírus se alastrou, começando a atingir outros países, e partiu-se então para a pesquisa de plausibilidade biológica. Se o vírus causa mesmo microcefalia, como ele faz isso? Quais são as provas biológicas de que ele é o agente etiológico? Será que é ele mesmo o causador ou algum outro cofator associado à infecção pelo vírus?

Pouco tempo atrás verificaram a presença do vírus no líquido amniótico (líquido que envolve o feto) de grávidas contaminadas, e há dois dias atrás publicou-se no New England Journal of Medicine o achado da presença do vírus na estrutura cerebral de um aborto de uma mulher contaminada pelo vírus. Uma eslovena fazendo trabalho voluntário em Natal contaminou-se com o vírus durante a gestação. No departamento de perinatologia do Centro Médico de Ljubljana, Eslovênia, diagnosticaram a microcefalia e a gestante optou pelo abortamento, autorizado pelos conselhos éticos locais. Autópsia do aborto revelou a presença do vírus em diversas estruturas cerebrais alteradas.

Cientistas dizem que ainda são necessárias mais provas para definitivamente selar a relação entre o vírus e a alteração cerebral em fetos, pois foi um único relato de caso (deve haver reprodutibilidade do achado). Mas na minha opinião não tardarão a surgir mais evidências biológicas desta ligação. Ou: não demorará muito para assistirmos a outros países desenvolverem pesquisas sobre uma epidemia que começou aqui, é isso? Quem faz pesquisa sabe que o financiamento para projetos foi drasticamente cortado neste ano; como fazer pesquisa sobre uma questão urgente no país se não há recursos? Além disso, enormes burocracias envolvendo o envio de amostras de sangue impedem a colaboração entre cientistas brasileiros e estrangeiros.

Enfim, enquanto cuidamos dos desvios do petrolão e das infindávies burocracias brasileiras, vemos no noticiário países europeus estabelecendo a etiopatogenia da doença, outros desenvolvendo vacinas e terapias, e o CDC emitindo repetidos alertas aos seus cidadãos.


 

Ref.: Mlakar et al. Zika Virus associated with microcephaly. NEJM, 2016.

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