Por que o artigo da Nature sobre esquizofrenia é tão importante

151001153931_1_900x600Há tempos atrás o entendimento sobre as doenças mentais assemelhava-se mais a um jogo de futebol: cada um vestia a camisa de um time e torcia para o que mais lhe aprouvesse. Uns torciam pela psicoterapia e falavam que remédio não adiantava, outros torciam pela medicação e falavam que terapia era placebo. A concepção da psique era feita de maneira multifacetada e desagregada, e cada um podia escolher um “jeito” de entender o seu paciente. E este “jeito” poderia nada ter a ver com a maneira com a qual outra pessoa entendia aquele sofrimento.

Ainda hoje percebemos esta desagregação. Outro dia ofereci uma explicação (interpretação) a um quadro depressivo de um paciente, e o mesmo começou a falar de sintomas físicos e minimizar os fatos de sua vida, suspeitando que por “haver uma explicação, um entendimento” de sua depressão, ele não receberia remédio. Como se estivesse, erradamente, maquinando: ou se entende, ou se medica.

No século XXI uma nova perspectiva tomou conta das ciências da mente: a translacional. O entendimento de que medicação muda a conexão entre as redes neurais; a ideia de que psicoterapia é capaz de alterar as neuroconexões e a neurotransmissão; o achado de que fatores ambientais como a vida em grandes cidades muda a arquitetura cerebral; evidências apontando que terapias não medicamentosas como meditação e exercício físico têm efeitos físicos positivos no cérebro. Situou-se finalmente o fenômeno mental no cérebro, mas de uma maneira a não reduzir todo e qualquer fenômeno da vida psíquica a simples impulsos elétricos. Ou seja, entende-se agora que tudo aconteça no cérebro físico (por incrível que pareça, muitas concepções anteriores subrepticiamente não incorporavam esta ideia), mas não de uma maneira simplista, direta, reducionista. Não se acaba com o símbolo, não se acaba com o inconsciente com isso. Muito pelo contrário.

Esta é a perspectiva da pesquisa translacional. Interessa saber se funciona, mas também o porquê funciona. Pesquisadores passaram a investigar por quais meios as cidades fazem mal ao cérebro das pessoas, como a psicoterapia e meditação agem nos neurônios, e assim por diante.

E o estudo publicado na Nature é importante por ser pictórico de anos de uma transformação filosófica na maneira de conceber a mente humana. Envolve mais de 20 países em colaboração, mais de 30.000 indivíduos pesquisados, e uma ampla investigação translacional. Não basta saber que determinado gene é mais prevalente em indivíduos com esquizofrenia, deve-se saber como este gene age. Passo-a-passo, os achados relacionados ao fator 4 do complemento revelaram que o mesmo têm a ver com inflamação e com a poda neuronal, processo que ocorre na adolescência de todo indivíduo. Juntamente com fatores ambientais, genes alterados predisporiam certos indivíduos à esquizofrenia por mecanismos que começam a ser desvelados. Teorias que foram aventadas há muito tempo, mas que só agora encontram um caminho por onde se pode enxergar como elas acontecem.

Achados como este sedimentam a integração dos conhecimentos em saúde mental em um corpo de conhecimento cada vez mais único e sólido, onde todas as áreas se comunicam e tratam de um mesmo cérebro. De uma mesma concepção de mente (ou, pelo menos, de concepções similares).

Em breve vestiremos todos a mesma camisa.


 

Ref.: Schizophrenia risk from complex variation of complement component 4. Sekar et al., Nature, 2016.

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