Terrorismo em Paris e a “contracultura virtual”

Jean-Jullien_illustration_Peace-for-Paris_attacks_dezeen_square-300x300Cento e vinte e nove pessoas morreram, e 352 ficaram feridas na França, após atentados terroristas do Estado Islâmico. Pessoas que assistiam a um show de rock foram simplesmente fuziladas, por ódio religioso. Paris, a “capital do vício e do adultério”… A reação é de indignação. Pessoas inocentes mortas por diferença de crença. Podia  ser que houvesse até mesmo muçulmanos dentro da boate.

Mas fundamentalismo é assim; intolerante, radical, cego.

Apesar das reações de solidariedade às mortes imotivadas de pessoas inocentes serem um tanto quanto óbvias (e naturais, e humanas), há sempre uma certa “contracultura virtual”.

Ela vem e inocentemente alega: mas e as vítimas de Mariana?

Sim, nós também sentimos muito por elas. E pela natureza que foi devastada na região. Mas isso parece não bastar. Muita gente fazendo conta mesquinha, argumentando que teve bandeira francesa mas não teve bandeira mineira, que a repercussão de um evento foi X e a de outro foi Y, e assim por diante. Há um certo “desastrômetro”, que mede a magnitude de cada desastre, priorizando ou não os nacionais em detrimento dos internacionais? Ainda assim, se por alguma infelicidade da natureza humana houvesse, apontaria que Paris, capital do mundo, é mais conhecida do que Mariana, e por isso a repercussão. Fora isso, na cidade francesa as mortes foram ações diretas de seres humanos. Pessoas maldosamente mataram pessoas. (Calma… Não quer dizer que não ligo para os que morreram em Mariana… Muitas pessoas leem com a rigidez de pensamento que lhes é conveniente para fazer extravasar o ódio e revolta irrestrita que carregam.) Por outro lado há o argumento da tragédia natural. Mas, e em Paris, não morreu mais gente? Por outro lado, a vida de um parisiense vale mais do que a de um brasileiro, ou mais do que o nosso ecossistema? Discussão sem fim, e sem validade. Se você é um dos que faz estes complexos cálculos  desastrômicos, mude de página. Os seres humanos de Mariana são tão seres humanos quanto os de Paris; e sobretudo, sentir pela morte de uns não significa não sentir pela morte dos outros. Não são sentimentos mutuamente excludentes.

Outros falam que em Beirute morreu um outro tanto de gente. Ou que na África também morreram tantas e tantas pessoas, vítimas de atos terroristas. E que não aconteceu o mesmo rebuliço. Aí vejo sim certa razão. Pois muita gente lê tais notícias de outros continentes e pensa “puxa, eu não sabia…”. Muito provavelmente não sabiam mesmo; capitais do mundo como Paris tendem a receber maior repercussão. Aposto que muitos dos que leem este texto já foram à Paris, mas nunca à Beirute. Novamente: não que as mortes na África sejam menos importantes… Pensador voraz, inflexível, acalme-se: tendemos a nos comover mais com pessoas e locais que nos são mais familiares. É evidente que mortes em Paris tendem a repercutir mais no ocidente do que mortes em outras localidades. Mas talvez devamos sim nos preocupar mais com outras partes do mundo, menos abastadas, que não visitamos turisticamente, onde também há gente morrendo… Quantos caças foram bombardear bases do EI dias após o ataque à universidade do Quênia? Pois é… Não que devamos pixar quem se enluta por Paris, mas deveríamos nos enlutar também por aqueles que morreram impiedosamente no país africano…

E há, por fim, o argumento de que a França apenas está colhendo os frutos do que plantou, ao acolher refugiados Sírios. A imagem do menino morto na praia vem à cabeça. Deixa morrer? A culpa não é da França por receber refugiados, isso é absurdo. Talvez, e muito provavelmente, alguns terroristas tenham se infiltrado no meio dos refugiados. Uma pessoa vem com um problema de saúde cujo tratamento passa pela necessidade de uma tomografia com contraste. No entanto, cerca de 0,5% têm reações alérgicas potencialmente fatais ao contraste. “Olha, não vou fazer sua tomografia, pois 0,5% podem morrer pelo contraste”. E 99,5% acabam morrendo então pela doença, pois não fizeram o exame. Não dá pra não salvar refugiados por conta de alguns terroristas teoricamente infiltrados (pois este dado também é especulativo). Bom, quantas vidas francesas perdidas por terrorismo valem a vida de um sírio morto afogado? Que conta complicada… Dá pra fazer esta conta? Não dá. Da mesma maneira que não dá pra olhar de braços cruzados as pessoas se afogarem.

Este raciocínio é similar ao que faz diferença entre mortos em Paris e em Mariana. No fundo, pregam haver diferença na importância das vidas de pessoas de diferentes nações. Brasileiro > Francês > Sírio? Por Deus… Brasileiro = Francês = Sírio = seres humanos.

O que a “contracultura virtual” nos faz ver é o lado mais sórdido do ser humano. Nadando contra a mobilização decorrente das mortes na França, o contraculturista acha que “está sendo mais esperto”, ou que “está vendo o quadro de maneira mais profunda e abrangente” ao pixar a comoção alheia.

A culpa é do fundamentalismo religioso. E nos comovemos pelos que viram a morte de maneira precoce, cruel e inesperada em Paris, assim como nos comovemos com os que viram a morte de maneira precoce, cruel e inesperada em Mariana, na África, no Mar Mediterrâneo, no Egito, etc.

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