Ansiedade e as grandes cidades

StarlingCityQuem não sente aquele alívio de pegar a rodovia e sair da cidade grande? Ver a vegetação de beira-de-estrada, deixar de ver um pouco o cinza do concreto. A preocupação com os efeitos nocivos da cidade estiveram sempre presente no discurso de sociólogos, filósofos e profissionais de saúde mental, desde quando elas cresceram vertiginosamente, após a revolução industrial. O excerto abaixo foi tirado do livro “Warped Space: Art, Architecture, and Anxiety in Modern Culture”, de Anthony Vidler:

 

“Of special interest was the space of the new city, which was now subjected to scrutiny as a possible cause of an increasingly identified psychological alienation – the Vienna Circle was to call it “derealization” – of the metropolitan individual and, further, as an instrument favoring the potentially dangerous behavior of the crowd. Metropolis rapidly became the privileged territory of a host of diseases attributed directly to its spatial conditions…”

(De interesse especial é o espaço na nova cidade, que foi questionada como a possível causa de uma crescente alienação psicológica identificada – o Círculo de Viena chamava-a de “desratização” – do indivíduo metropolitano e, além disso, como um instrumento que favorece o comportamento potencialmente perigoso da multidão. A metrópole se tornou rapidamente um território privilegiado de uma gama de doenças atribuídas às suas condições espaciais…)

Assim, a cidade, pela sua multidão de pessoas e de estímulos, e pelo pouco espaço que temos em meio a um lugar de muito espaço, é lugar de certa alienação. Pois é impossível que se faça contato significantes com os sem-número de transeuntes, de anúncios, de estímulos auditivos e visuais de toda sorte; a resposta fisiológica a isso é bloquear os estímulos. De uma certa forma, assim, alienar-se deles. Pois se nas pequenas cidades todos se conhecem, na cidade grande não se conhece ninguém. Não se pode conhecer a todos.

Fruto, em parte, de alienação aliada à inundação de informação e estímulo advinda da selva de concreto, coloca-se a agorafobia como entidade patológica do espaço. Anthony Vidler traz o exemplo de como esta patologia era chamada de “malária urbana” por alguns autores do século passado. Ágora era uma praça nas cidades-estado grega caracterizada por reunir os habitantes daqueles lugares. Assim, fobia da ágora trata-se da doença caracterizada por um medo de enfrentar locais públicos com grandes aglomerados de pessoas, ou onde seja difícil encontrar uma saída. Nos estágios mais graves a pessoa não sai de casa por ter medo de uma crise de ansiedade.

E se na época do círculo de Viena, há 90 anos atrás, este tipo de conhecimento era especulativo e intuitivo, hoje ele é comprovado cientificamente. Diversos estudos provam que “urbanicidade”, termo utilizado para descrever os níveis de urbanização de um lugar, e baixo capital social (bairros violentos, com poucos estabelecimentos voltados à comunidade como farmácias, supermercados, etc.), estão associados ao desenvolvimento de doenças mentais. Algumas publicações sugerem que para doenças como a esquizofrenia, por exemplo, urbanicidade pode ser responsável por até 40% da causação da doença.

A impessoalidade das relações sociais (pois precisamos “nos defender” do grande número de estranhos com os quais entramos em contato nas metrópolis), a arquitetura metropolitana (que faz com que apenas enxerguemos concreto, e também com que sejamos inundados por inúmeros estímulos visuais como outdoors, marcas estampadas em vitrines, lojas, e assim por diante; “não enxergamos o horizonte”, segundo Vidler), o medo da multidão (que nos faz andarmos com vidros dos carros erguidos, andarmos apressados na rua à noite, sempre temerosos por assaltos) e o amontoamento de gente, cada um com seu interesse, atropelando, buzinando, brigando, formam o cenário ansiogênico da grande cidade.

É por isso que vemos os números de transtornos mentais, principalmente de distúrbios de ansiedade, crescerem nas grandes cidades. Com a valorização imobiliária que cria cada vez espaços mais compactos para uma família viver a tendência é de piora.

Como lutar contra o caminhar da civilização e a tendência de aglomeração do ser humano nas cidades?

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