Jogado na areia

48680 O menino Aylan morreu. A criança Aylan. E foi fotografada, na praia de Bodrum, face voltada para a areia. Quem tem filhos e viu a imagem, por um instante os viu também ali, jogados na areia. Assim como o policial Mehmet Ciplak, que recolheu o corpo: “Quando vi o pequeno pensei em meu filho e me coloquei no lugar de seu pai.” Gato por lebre. Bote inflável por barco motorizado. Morte por vida nova. Amargura por esperança. Retorno ao terror por exílio. O pai pagou o equivalente a dezessete mil reais para ser ludibriado e ter sua família afogada. Maldade. A foto é veiculada, repetida vezes. Mas todos já a viram. O mundo já se mobilizou. Algumas vezes a foto passa da mobilização para a utilização. Sensacionalista. Maldade. Estampa escandalosamente a capa de uma grande revista nacional, enquadre no corpo, com os dizeres de um escritor prêmio Nobel. Que o mal vem do homem. Isso não é novidade. Em Gênesis, “Iaweh viu que a maldade do homem era grande sobre a terra, e que era mau todo desígnio de seu coração”. De onde mais viria o mal? De Marte? Do Inimigo… Ou dos loucos… Álibis comuns para apaziguar e alienar a covardia da alma humana. Mas citar a Bíblia é piegas, e pode parecer pregação. Religioso demais. Chique é citar Nobéis. Chique é preocupar-se com problemas globais, estar antenado no mundo, enquanto que outros tantos Aylans morrem por aqui, sem ganhar capa de revista. Maldade. Porque estes outros não atrairiam tantos leitores. Se fosse o menino morto no freezer logo reconheceriam o sensacionalismo. Ou os tantos bebês abandonados em latas de lixo e sacos plásticos. Não seria chique, lembraria o Notícias Populares. Maldade. A mortalidade infantil na Síria em 2014 foi de 15.8 crianças por 1000 nascidas. No Brasil, no mesmo período, foi de 19.2… Mas nossos problemas não são chiques. Maldade. Alemanha e Áustria aceitam agora de braços abertos os refugiados. De braços abertos? A xenofobia, velha conhecida e problema crescente na Europa, sumiu num átimo de segundo? A aversão alemã dos turcos, a repulsa francesa pelos muçulmanos, o neo-antissemitismo húngaro, sumiram todos? Nem Freud em rede nacional seria capaz de gerar tamanha sublimação em massa… Mas depois da foto, não pegaria bem erguer novos muros de Berlin. Com todos olhando. Não seria chique. Mas a Bulgária (entre outros) o estava fazendo; o muro. Sim, é complicado receber demanda de outros países que não conseguem dar conta de suas situações. Como ficam os cidadãos que ali pagam impostos e que de repente se veem as voltas com estrangeiros que pra lá vão  por incompetência de governos alheios? (Incompetência ou desvantagem histórica? Neocolonialismo?) Quando se trata de refugiados de guerras civis, justificável, sim. Quem viu as imagens de Kobani e a selvageria do Estado Islâmico entende a fuga. Legítima. Mas em se tratando de refugiados econômicos, questionável. Um revide ao neocolonialismo? Escreve o polêmico Thierry Meyssan que a maioria dos “refugiados” não são famílias, e sim homens jovens, entre 18 e 34 anos; refugiados econômicos. Legítimo? Questionável. Há também as crianças refugiadas mandadas desacompanhadas para a Europa. Crianças maltratadas, traumatizadas pela viagem e pelos abusos de estranhos. Maldade. Nojento. Não dá pra passar uma régua, há que se separar. Será que a Europa teria aberto suas portas caso a foto não tivesse sido tirada? Seria acreditar demais na bondade humana; nem Iaweh acreditou… Não é de hoje que há guerra na Síria. Não é de hoje que há guerra na Eritréia. Não é de hoje que há guerra no Afeganistão. Se Aylan não tivesse sido fotografado, provavelmente as coisas estariam na mesma. A hipocrisia é a melhor máscara da maldade.

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