Game over: homicídio-suicídio

“Não pode ser, deve ser armação. O cara filmando a si próprio atirando, bizarro…”. Foi o que ouvi de um colega depois de assistir o vídeo no noticiário. Crimes assim, chamados diádicos (homicídio-suicídio), chocam a sociedade. Sadismo? Perversão? Psicopatia? Não dá pra saber. Agressividade extrema, certamente.

Teorias sobre o homicídio-suicídio relacionam a anomia, conceito de Durkheim, como um importante fator envolvido. Haveria cinco maneiras de se lidar com a anomia: conformismo, inovação, ritualismo, reclusão ou rebelião. Esta última levaria indivíduos a se comportarem de maneira agressiva, retaliando a sociedade que os exclui. Esta teoria explicou bem os casos de homicídio-suicídio entre trabalhadores da Chicago do final do século XIX; incapazes de alcançar o status de classe-média, entraram em estado anômico e com isso a taxa deste tipo de crime aumentou naquela população. O mesmo poderia se aplicar a Vester Flanagan, pertencente a dois grupos frequentemente discriminados nos Estados Unidos, a saber, homossexuais e afrodescendentes.

Por outro lado, há quem diga que homicídio e suicídio são crimes muito diferentes, defendendo a ideia de que é difícil elaborar uma teoria que os una. A psicanálise pensa o contrário; Freud elaborou diversos escritos sobre a agressividade humana, colocando que suicídio e homicídio são apenas lados de uma mesma moeda. Se o homicídio é um ato agressivo direcionado a um objeto externo odiado, o suicídio seria este mesmo ato, só que direcionado a um objeto internalizado. O objeto externo pode ser algo próprio projetado também. O suicídio é um desejo de matar, um desejo de ser morto, e um desejo de morrer, segundo Karl Menninger.

Mas o que talvez mais nos assombre seja o vídeo do assassino. Quem não viu ali semelhança com os jogos de videogames de tiro em primeira-pessoa? Daí o espanto do meu colega, aquele da primeira frase do texto.

Oitenta e cinco por cento de todos os videogames contêm algum tipo de violência, e metade deles contêm violência grave. Videogame dessensibiliza para violência; pessoas acostumadas a jogos violentos têm reações fisiológicas diminuídas frente a estímulos violentos. Crianças e adolescentes expostos a jogos violentos tendem a se tornar adultos mais agressivos. O efeito da exposição à mídia violenta em idade precoce (entre 6 e 11 anos de idade) é maior em causar comportamento violento na idade adulta do que o efeito de baixo QI, de pais abusivos, da exposição a colegas antissociais, ou de morar em uma casa com dificuldades financeiras graves.

Outra questão associada ao crime é a polêmica sobre desarmamento nos Estados Unidos. Se por um lado estudos mostram que crimes violentos não são uma função do percentual de posse de arma pela população, isso não é verdade para as taxas de suicídio. Poderíamos pensar que se restringíssemos as armas as pessoas imbuídas do desejo de se matar procurariam outros métodos. Mas estudos mostram que quando se restringe o método, uma parcela destes indivíduos não leva a cabo o suicídio. A disponibilidade de métodos letais não é causa, mas certamente facilita. As taxas de suicídio por armas de fogo nos Estados Unidos e na Suíça, países muito permissivos com armas, são significativamente mais altas do que em outros países. Quanto ao homicídio-suicídio, não se sabe.

Bom, mas o caso de ontem não foi uma morte diádica clássica, que geralmente envolve pessoas da mesma família. Além disso, Flanagan pode ter se matado devido à perseguição policial. Pode ser… Não é possível que tenha feito isso só por discriminação, ou por causa de videogames que nem sabemos se jogava ou não, devia ter algum distúrbio mental. Pode ser… O atirador estava planejando a ação havia semanas; se não houvesse arma de fogo, provavelmente teria escolhido outro método. Pode ser… E mais, quem mata é o homem, não a arma. Pode ser… Tudo isso, pode ser. Agora o que não dá pra ser é ingênuo e encarar isso como um ato isolado, pensando que nada tem a ver com anomia e violência em uma sociedade. Pois é mais fácil reproduzir Pôncio Pilatos, lavar as mãos e outorgar o fato a “apenas mais um maluco qualquer com uma arma” do que expandir o olhar e implicar os diversos fatores que contribuam para tal. Afinal, não foi o primeiro atirador deste tipo nos Estados Unidos (aliás, Flanagan falava muito de Columbine e mencionou Charleston em seu fax de despedida enviado à emissora dos repórteres…). O olhar precisa mudar para que mais Flanagans não apareçam no futuro.

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