Depressão e (sem acento) covardia

hqdefault-2A depressão é a quarta doença que mais gera disfunção e dias de trabalho perdidos no mundo, acometendo cerca de 20% da população geral, conforme mostram estudos epidemiológicos. Se por um lado em tempos remotos não se tinha ideia das causas e da fisiopatologia da doença, hoje há um considerável corpo de evidências que desmistifica as bases biológicas do distúrbio, mostrando alterações na neurotransmissão, reações inflamatórias, alterações do metabolismo cerebral, etc. Não obstante, visões como as de Luis Carlos Prates, jornalista demitido do SBT ao dizer no ar que pessoas com depressão são “covardes existenciais”, infelizmente ainda são muito comuns.

Aqui e acolá ouvimos pessoas falando que depressão é frescura, que depressão é preguiça da pessoa, que isso tudo é invenção, e assim por diante. Mesmo apesar de todo o avanço científico sobre as bases biológicas do transtorno, por que estas visões ainda se mantém?

Dentre os vários fatores que perpetuam o estigma desta doença mental, um deles é a concepção de mente como entidade separada de um corpo físico. Tal concepção data de tempos imemoriais, mas podemos ver esta ideia mais bem contornada quando Descartes elabora o seu célebre cogito ergo sum, o “penso logo existo”. Nas “Meditações Metafísicas” o filósofo traça um percurso no qual a mente ganha total autonomia frente ao corpo. Pois mesmo as percepções, vindas do corpo, podem estar alteradas e iludir esta mente (alucinações); portanto a única coisa na qual se pode confiar é na sua própria existência e no seu próprio pensamento. O “penso logo existo” é reflexo da autonomia que a mente ganha sobre o corpo. Ideia que ainda permanece hoje.

Assim, no exemplo do jornalista, um quadro depressivo só ocorreria por vontade desta própria mente. Se ela é autônoma e independente, não sofre interferências do corpo, e qualquer coisa que ocorra com ela é culpa das escolhas que ela fez. Não estando sediada no corpo, alterações do funcionamento deste mesmo corpo (leia-se aqui cérebro), como no caso de quadros depressivos, não poderiam afetar a mente. É assim que, na cabeça do jornalista, depressão é fruto de “covardia existencial”. Ou seja, a culpa da depressão é da própria pessoa… Como se a depressão fora uma responsabilidade e escolha do indivíduo.

Quando uma fala tão bizarra vem ao ar, é fácil vermos o preconceito e o erro de julgamento de tal concepção. Mas no dia-a-dia são muitos os resquícios de um pensamento dualista sobre a mente; ao se conceber quadros psiquiátricos de fundo exclusivamente psicológico, e outras de causa estritamente biológicas, por exemplo. Vai levar um tempo ainda para que a pesquisa translacional mude toda essa concepção popular de mente separada do corpo.

Mas separar mente de corpo encontra uma motivação, também: a sensação de controle. Como diria um filósofo, o ser humano é sedento por poder, e dar autonomia àquilo que lhe é mais precioso, a mente, o transforma em um semi-Deus. Afinal, quem nunca se interessou por livros de autoajuda que exaltam os “poderes da mente”? Chega de antidepressivos, de psicotrópicos, de remédios! Para que? Minha mente tudo pode! Mas, em alguns casos, não… E Prates, querendo controle, foi covarde, usou o jornal, descontrolou-se, foi demitido, e já não controla o jornal que antes controlava.

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