Hemingway e a(s) doença(s) psiquiátrica(s)

HemingwayOutro dia deparei-me com uma daquelas figuras com frases prontas típicas do facebook, dizendo que fulano nunca tinha conhecido uma pessoa excepcional que não tivesse tido um passado difícil (ou algo do gênero). Tirando certa dose de exagero e contemporizando a rigidez da asserção (pois se não o fizermos, facilmente jogamos todas estas frases na categoria de pieguices de internet e perdemos o que tais ditos populares podem ter de verdade), acredito sim que dificuldades vividas podem servir em alguns casos para amadurecer uma pessoa.

Voltei-me então para a associação entre doença mental e atividade artística, a dificuldade que estas pessoas passam devido a tais distúrbios e a transformação disto em arte, em especial no caso dos escritores; Virginia Woolf sofria de distúrbio afetivo bipolar, Franz Kafka tinha depressão, Tolstoy também padecia de distúrbio afetivo bipolar e flertava com ideias de suicídio. Parece ser alta a frequência de transtornos psíquicos entre escritores. Mas dentre todos estes relatos, o que mais me chamou a atenção foi o de Ernest Hemingway.

Em um artigo intitulado “Ernest Hemingway: A Psychological Autopsy of a Suicide” (Uma autópsia psicológica de um suicídio), Christopher D. Martin faz um resumo de diversas biografias de Hemingway de um ponto de vista psicológico. O primeiro fato que chama a atenção é o extenso histórico familiar de doença mental do autor; diversos parentes tinham distúrbios afetivos, e além disso o pai, alcoólatra falido, se matou quando ainda era jovem, com um tiro na cabeça. Assim, Hemingway passou por diversos abusos emocionais na infância, com a falta do pai e uma mãe que o vestia como menina e o feminizava. Isso fez com que desenvolvesse um intenso e permanente ódio pela mãe, à qual se referia em geral por xingamentos quando conversava com amigos (“aquela vaca”, etc.). Outro fato importante foi que sua vida caracterizou-se por fases de intensas alterações de humor, apresentando diversas épocas nas quais predominava a depressão, com sentimentos de menos-valia e falta de energia, e outras fases de humor extremamente exaltado, grandiosidade, privação de sono e irritabilidade, que caracterizavam fases francamente maníacas, caracterizando assim o transtorno afetivo bipolar. Um terceiro fato que salta aos olhos em sua trajetória é uma história de traumatismos cranianos recorrentes; teria traumatizado a cabeça com gravidade no mínimo três vezes. Em uma delas, após acidente de avião, ficou confuso e, segundo relatos, estaria derramando líquido cefalorraquidiano pelos ouvidos por causa de uma fratura no crânio. Passou diversos meses com quadro de confusão mental, visão dupla e zumbido no ouvido até voltar ao normal. Por último, o alcoolismo foi uma constante em sua vida. Parece que buscava o álcool para aliviar os seus sintomas de humor, mas por fim ele acabava na verdade os piorando.

Uma das questões a se colocar é a razão de escritores apresentarem quadros psiquiátricos com tanta frequência. Claro que em Hemingway uma carga genética desfavorável deve ser um fator a ser levado em conta, mas uma das hipóteses é a de que a criatividade é um fator de risco para depressão; estudiosos dizem que o pensamento criativo, por ser incomum, pode não achar repercussão social e gerar sentimentos de exclusão, com consequente auto-reprovação e baixa autoestima. Uma outra hipótese bastante citada também é a dependência que estas pessoas criam da opinião alheia; dependem da crítica e de seus leitores, por exemplo. Ficam à mercê da avaliação de suas obras e frequentemente abalam-se diante de repercussões negativas de seus feitos, com os quais têm uma ligação muito afetiva.

Também, para dar conta de tanta angústia, a própria escrita é vista em Ernest como um mecanismo de defesa, segundo o autor do artigo. O que talvez traga a ideia de que vão se tornar escritores aqueles com mais questões existenciais e conflitos. Muitos trechos da obra de Hemingway assemelham-se à sua própria biografia, o que faz essa hipótese se fortalecer. E muitos de fato veem na escrita uma forma de elaboração de conflitos pessoais. Mas cabe aqui desfazer um mito, o de que a doença mental pode ser revertida completamente em arte. Muitos dizem que tratar a doença mental inibe a criatividade e acaba com a inspiração, possivelmente silenciando artistas em potencial. Hemingway, já mais ao final da sua vida, e próximo do suicídio, devido à cronicidade e recorrência da doença, entrou em quadros graves de depressão. Nestas fases parou de escrever, e chegou a ser internado, tendo de ser submetido a sessões de eletrochoque, um procedimento ainda hoje muito estigmatizado mas com alta eficácia para quadros depressivos. Terminadas as sessões, refere o autor que obteve grande melhora, e voltou a um período produtivo de sua vida, voltando a escrever com grande entusiasmo. Não obstante, houve recaída e por fim terminou sua vida seguindo o caminho do pai, suicidando-se com um tiro de espingarda na cabeça. A angústia pode ser transformada em atividade artística, mas rompendo determinado limite, deixa de ser sublimação e vira doença, devendo ser tratada.

É impressionante como uma pessoa com tantos problemas de vida e com tantas comorbidades psiquiátricas tenha conseguido traduzir parte de sua angústia em obras de imortais de alcance mundial. O que dá certa razão à piegas frase pronta de facebook discutida no começo do post. Mas fica o lamento de perceber que mais um grande mestre foi vencido, no final, pela doença mental.

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