Como se dá a escrita literária?

50034921_1-171x300A produção de ficção na literatura sempre foi matéria de interesse científico, geralmente envolvendo diferentes áreas do saber quando é investigada. Como os autores produzem suas obras de ficção?

Evidentemente que a melhor e mais óbvia resposta é que não existe uma regra. Mas uma pesquisadora americana entrevistou cinco escritores, e propôs-se a delinear alguns denominadores comuns da escrita literária. Eram eles dois iniciantes, a lançarem seus primeiros livros, dois escritores intermediários, já com certa produção, e um escritor sênior, de grande renome no país. Apesar de cada um relatar um estilo de produção muito sui generis, a pesquisadora conseguiu achar alguns pontos em comum.

Quando perguntados sobre o que deflagrou a elaboração das obras, os autores em geral falaram de “eventos-semente” (seed events, eventos geradores). Tais acontecimentos eram fatos que fugiam da rotina do dia-a-dia, fatos que marcavam o escritor por mostrar-lhe algo que não conheciam. Através destes eventos “souberam que na verdade eles não sabiam”. Desta forma, dividir apartamento com uma proprietária de 100 anos de idade, entrevistar sobreviventes do holocausto, observar uma pessoa outrora racista agora carregando um bebê afrodescendente no colo, foram fatos relatados pelos autores como “eventos-sementes”, ocorrências que os propeliram à escrita. Tais eventos trazem o mistério, são intrigantes, tocantes e mobilizadores. São pontos de partida.

Outro ponto em comum foi a descrição de um reino da escrita. Antes mesmo da ocorrência dos “eventos-semente”, o escritor teria fundado um reino da escrita, um cenário físico, um local onde pudesse escrever. Um lugar onde pudesse deixar acontecer a escrita, um local solitário, especial, propício para ele colocar as ideias no papel. Os “eventos-semente” muitas vezes ocorrem no contexto de tais lugares. Estes locais podem trazer da memória eventos-semente que tenham ocorrido no passado, por exemplo. Podem haver diferentes locais, cada um envolvendo um “modo cognitivo” específico: um lugar onde a pessoa vai se sentir mais melancólica, outro onde se sinta mais racional, e assim por diante.

Após os “eventos-semente”, trafega-se entre o reino da escrita e o que chamam de mundo ficcional. Oscilam entre uma escrita mais racional (mundo da escrita, mundo real), e uma escrita irrefletida e espontânea (mundo ficcional). No mundo da escrita geralmente aspectos mais técnicos são pensados, como por exemplo a escolha da voz da narrativa. Quando falam sobre este mundo autores geralmente empregam a primeira pessoa, como “eu decidi fazer isso e aquilo com tal personagem”, “eu quis que aquilo ocorresse no enredo”, etc. Já no mundo ficcional usam termos mais passivos, onde os personagens tomam mais conta, tomam conta até mesmo do autor. As ideias fluem com mais espontaneidade, é o lugar do irracional, do emocional, é o mundo onde a ficção da obra acontece.

Outra ocorrência interessante relatada foi o grau de contato que os autores têm com seus personagens. Emocionam-se com eles, falam com eles, fazem perguntas, os sentem, etc. Sentem-se responsáveis por eles. Os personagens são pessoas como quaisquer outras, que poderiam ter conhecido no mundo real, mas que não são réplicas de alguém que conhecem ou conheceram de fato. Se por um lado o mundo da escrita é solitário e envolto de técnica, o mundo ficcional caracteriza-se pelo contrário, sendo povoado por vários personagens inventados pelo escritor, pelo afeto e emoção que eles trazem. Personagens agem e eventos ocorrem, neste âmbito, a despeito do controle ou desejo do autor.

Por fim, os autores também falaram dos lapsos que ocorrem na elaboração da ficção. Por vezes passam longos períodos sem escrever e entrar de volta no mundo ficcional. Nestes momentos até acreditam terem perdido a voz na ficção, passando por verdadeiros processos de reentrada. Após terminada a obra, também podem haver lapsos como estes. É por isso que em geral se fala que “o empurrão para a compleição do trabalho deve ser forte, para que se sustente sobre longos períodos de tempo, frustrações, interrupções e sentimentos de derrota”.

 


 

Ref.: Doyle, CL. The Writer Tells: The Creative Process in the Writing of Literary Fiction. Creativity Research Journal 1998, 11(1):29-37.

 

 

 

 

 

 

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