“Por que parou de escrever?” – Literatura e psiquiatria

tumblr_static_writing“Por que parou de escrever?” perguntaram alguns. Outros certamente colocaram isso na conta das férias. Uma folga do blog, das atividades acadêmicas, do trabalho.
Na verdade não parei de escrever, apenas estava escrevendo em outro lugar. Decidi dedicar um rompante criativo que brotou no mês de janeiro, obviamente ocasionado sim pela folga nas atividades acadêmicas e no hospital, ao término de um segundo romance.
Mas escrever, além de ser um enorme prazer para mim, traz também algumas reflexões à tona. Como por exemplo a questão da interessante interface entre a literatura e a psiquiatria.
Não é de hoje que percebemos ser a literatura um importante veículo para trazer ao público informações sobre os diversos distúrbios mentais. Frequentemente nos questionamos se escritores possuiriam algum tipo de conhecimento técnico sobre o assunto, já que conseguem muitas vezes descrever com impressionante clareza quadros psiquiátricos em seus personagens. Ou seja, se descreviam aquele determinado sujeito “de caso pensado”, querendo comunicar ao leitor um quadro depressivo ou ansioso, por exemplo. Mas Shakespeare e Tolstoi viveram muito antes das nosografias psiquiátricas. Assim sendo, o fizeram da maneira muito mais rica do que aquela do livro texto de psiquiatria: através da intuição. Passaram a informação do sofrimento psíquico de um determinado personagem para o seu leitor sem o molde da classificação, do enquadramento da medicina. Transmitiram impressões que passam longe do diagnóstico e da reificação do subjetivo através do rótulo.
Aí está a grande vantagem da literatura, e é por isso que cada vez mais ela é utilizada no ensino médico no mundo inteiro. Ao contrário do livro texto, ela traz à tona o personagem e seu sofrimento, e juntamente com ele traz também todo o seu em torno. Sua vida, sua biografia, as relações ao seu redor, seus familiares, a sociedade e a rede social fictícia na qual o personagem está inserido. Assim, fora do molde do diagnóstico, que aponta para o plural, o personagem é contraditoriamente mais abrangente ao trazer um singular.
Em segundo lugar, não há o constrangimento muitas vezes intransponível da entrevista, que inevitavelmente deixa uma dúvida ou outra acerca da subjetividade do entrevistado. O personagem é mais acessível. Escritores como Dostoiévski e Tolstoi trazem a experiência do sofrimento de maneira mais visceral que o conhecimento técnico. Através de metáforas e de outros recursos linguísticos que não podem ser usados no livro texto, mobilizam-nos a fantasia e a imaginação e nos fazem experimentar diversos estados depressivos, ansiosos e paranóides em seus romances. Conseguimos olhar o personagem “de dentro”, senti-lo.
Outra característica frequentemente citada também é a de que o personagem literário é seguro. Afinal, no âmbito da vida real, seria muito fácil evocar-se uma contratransferência negativa ao se tratar de uma bela socialite carente, suicida e deprimida que abandona seus filhos e deixa para trás um rastro de relações pessoais fracassadas. Mas os leitores se compadecem muito facilmente com a Anna Karenina de Tolstoi e seus grandes dilemas e conflitos humanos.
O que particularmente acho difícil para o médico escritor é justamente isso, colocar de lado todo o conhecimento técnico para deixar fluir a intuição e espontaneidade das impressões com as quais querem tingir seus personagens. É este o grande desafio: conforme um ensaio de Heidegger que publiquei aqui anteriormente, a arte consiste justamente em largar o entendimento técnico para transmitir um entendimento intuitivo. Uma comunicação mais emocional do que racional.

 

(P.S.: alunos, pelo amor de Deus não joguem seus livros texto fora! Eles são imprescindíveis! Apenas leiam mais literatura.)

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