O serial killer moderno

confessoVolta e meia eles aparecem. Apesar de ser uma ocorrência extremamente rara segundo as estatísticas, os serial killers, quando descobertos, logo tomam conta dos noticiários. O mais recente deles foi Sailson José das Graças. Alega ter matado mais de 40, e constam em seus depoimentos frases como “tinha prazer quando ela se debatia e me arranhava”, “foi vindo a mente de fazer mais e mais, e eu gostei e comecei a me acostumar”, “não tenho arrependimento nenhum, se eu sair daqui vou voltar a fazer a mesma coisa”.

Estes crimes chamam a atenção por expor o lado cruel e desumano do ser humano, e fazem com que, estupefatos, nos indaguemos sobre as obscuras motivações de tais pessoas. Com isso estuda-se exaustivamente o caso individual, e muitas vezes se perde o que pode estar além do indivíduo; na literatura os dados mais abrangentes como influências sociais e culturais geralmente escapam ao escopo de investigação sobre os serial killers. Estudos sobre estes aspectos são escassos.

Neste sentido, um dos primeiros argumentos foi o de que estas pessoas eram resultado dentre outros fatores de um excesso patológico de cultura americana. Um efeito do fordismo, da produção em série. Argumento errado, pois o assassino serial é tão velho quanto a espécie humana. Viu-se que a existência de serial killers é “a-histórica”, “a-cultural” e independente de contexto; existe em todas as culturas, existiu em todos os tempos. Mas se por um lado provavelmente algumas pessoas já matavam sequencialmente há mais de 500 anos atrás, naquela época as forças que moldam o serial killer contemporâneo não eram tão proeminentes, uma vez que são características sumamente modernas.

Não se trata de apontar causas, mas de se pensar em fatores de nossa cultura e sociedade que moldam e algumas vezes possibilitam a ação destes assassinos. Como identidade pessoal e subjetividade são modeladas por discursos e fontes simbólicas com os quais as pessoas entram em contato na sociedade, há fatores culturais e institucionais modernos que moldam de maneira específica esta forma de assassinato.

  1. A mídia de massa e a cultura de celebridade. Certamente a mídia em massa é uma das grandes conquistas da sociedade moderna. Se por um lado ela transpõe barreiras culturais, acelera o passo da evolução, aproxima pessoas, por outro ela alimenta o apetite público pelo sensacional, capitaliza o horrífico, e institui uma cultura de celebridade. E o serial killer faz parte deste espetáculo. Não é que a exposição à mídia vai transformar pessoas em serial killers, longe disso. A influência aqui é mais oblíqua, fornecendo um código de funcionamento e contexto cultural para a atuação destes monstros. Os serial killers têm uma relação simbiótica com a mídia, e a mídia em massa oferece uma importante oportunidade para eles de constituição de identidade. Seja através do reconhecimento alheio de um status de celebridade, seja através da absorção de códigos deste tipo de personagem. Hoje em dia o serial killer aparece assim como uma forma de subjetividade. Reiterando, a mídia em massa não tem papel causal, mas é instrumento para o tornar-se celebridade, e oferece também a opção do papel de serial killer (através de filmes, seriados, noticiários, etc.).
  2. Anonimato: uma sociedade de estranhos. Outra característica importante das sociedades modernas é a crescente urbanização. Se por um lado nas cidades pequenas a chegada de um estranho era sempre notada, na cidade grande o indivíduo encontra-se imerso em um mar de estranhos. O anonimato social dos grandes centros urbanos é condição sine qua non para a atuação do serial killer.
  3. Racionalidade. A modernidade, tendo como predecessora o Iluminismo, é caracterizada por um profundo enraizamento da racionalidade. Max Weber define diversos tipos de racionalidade, e descreve a racionalidade formal como a mais estimulada nas sociedades modernas. Este tipo de racionalidade ignoraria valores, em prol da efetividade e dos resultados das ações. Esta evacuação de valores acaba também por instrumentalizar muitas vezes as relações humanas, que passam a visar mais os fins do que a relação em si. Os serial killers seriam expressões radicais e aberrantes desta instrumentalização das relações: suas vítimas são reduzidas a meios para atingir um determinado fim – em geral meios de saciar um desejo psíquico por controle e auto-engrandecimento. Outra característica moderna incutida no serial killer pode ser exemplificada como a racionalidade no planejamento de seus crimes.
  4. Estruturas sociais de difamação. Como discutido aqui por diversas vezes, a sociedade moderna tem a tendência de eleger certos grupos sociais para estigmatizar e difamar. É assim com negros, com homossexuais, com indivíduos com distúrbios mentais, etc. Aqui novamente o serial killer leva ao lado mais radical este processo, escolhendo suas vítimas desses grupos. Esta estrutura de preconceito e exclusão possibilita que o assassino a extreme, retirando do excluído o caráter de humano. Suas vítimas, como são indivíduos excluídos da sociedade, não são humanas, são objetos.
  5. Engenharia social: um dos quatro tipos de serial killers descritos por Holmes e DeBurger é o “missionário”. Ele tem uma missão: livrar a sociedade de tipos particulares de pessoas. De maneira perversa, o serial killer articula a idéia moderna de melhoramento social de modo bizarro e patológico: muitos descrevem seus atos como “um bem à sociedade” ao “eliminar o lixo que existe nela”.

Estas são algumas das intersecções entre a modernidade e o serial killer, moldando e muitas vezes possibilitando a atuação deste último. Bom, chega de escrever, preciso fechar o laptop; estou ansiosíssimo para assistir ao último episódio de Dexter… (para aqueles que não gostam de velharia tem a opção do “Dupla Identidade”, nacional, da Globo)

 

(Ref.: Haggerty KD. Modern serial killers. Crime, Media, Culture, 2009, 5(2):168-187)


 

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