Bolsonaro: ninguém merece

bolsonaroDiriam alguns que foi um belo de um ato falho! Um daqueles escancarados, escandalosos, que qualquer um consegue perceber mentalmente simulando um raivoso questionamento face-a-face: “se merecesse então o senhor estupraria?!?”. Como aqueles pequenos deslizes que revelam o verdadeiro pensamento do sujeito, “eu até tenho um amigo homossexual (ou negro)”, terminando a frase com aquela altiva feição de orgulho e provocação, afronta de quem está fazendo algo de muito errado mas sustenta o “pecado” mesmo diante de olhares de reprovação. (O “até” é de matar…)

Mas não, não foi um ato falho. Pois atos falhos são erros de discurso ou comportamento que denunciam atividade inconsciente, atividade esta que não pode vir à tona de maneira cônscia. O que Bolsonaro falou nada teve de atividade inconsciente que lhe geraria angústia ao vir à tona. Foi um ato deliberado mesmo, fruto de ideias bastante conscientes. Basta olhar seu histórico de declarações polêmicas à mídia.

Poderíamos pensar que se trata de um daqueles ‘vozões’, saudosistas, já com pensamento enrijecido pela idade, que volta e meia soltam pérolas dos “bons tempos de antigamente”. Riríamos, dizendo um “Tá bom, vô”, e mudaríamos de assunto para que não ingressássemos em querela infrutífera e sem finalidade.

Mas não.

O deputado angariou quase 500.000 votos na última eleição, sendo escolhido em primeiro lugar para o cargo de deputado federal pelo Rio de Janeiro. Assim, não se trata de alguém cujo discurso é facilmente descartado pela obviedade de sua intolerância. São ideias que encontram respaldo na população.

As possibilidades de entendimento desta preferência são várias. Poderíamos pensar no machismo da cultura brasileira, em fatores históricos da constituição de nossa sociedade, e assim por diante. Mas ressalto aqui um viés psicológico.

O discurso de Bolsonaro tem duas características que saltam aos olhos. Homofobia e sexismo geralmente estão associados a uma personalidade mais rígida e autoritária, e assim é a sua fala: uma fala de autoridade, de imposição de poder, de regras rígidas. O segundo fator, que ele mesmo exalta, é o da transparência. Até como forma de se promover para uma possível candidatura à presidência em 2018, o deputado se diz transparente. Sem papas na língua, fala o que pensa, e não tem medo da repercussão das próprias ideias perniciosas.

Pois bem; já data de várias décadas o estudo da associação entre autoritarismo e o sentimento social de ameaça. Erick Fromm dizia já em 1941 que em um mundo incerto e sem direção, as pessoas tendem a “fugir da liberdade”; uma destas saídas sendo o autoritarismo. Já Glenn Wilson em 1973 vai escrever que a ansiedade gerada por fontes externas (violência, insegurança econômica) é motor de dogmatismos e de intolerância. Stephen Sales, nos Estados Unidos, observou que a conversão de indivíduos de religiões não-autoritárias para seitas radicais e autoritárias aumentou drasticamente no período da grande depressão, nos anos 30.

Assim, sob um viés mais psicológico, podemos argumentar que Bolsonaro se apropria de um panorama tingido de recentes revoltas populares nacionais, de um cenário econômico de enorme incerteza, e da sensação de violência iminente que ronda moradores de grandes metrópoles, em especial a que o elegeu deputado federal, para ganhar corpo político. A regra dá segurança, e a intolerância sugere poder e controle aos mais incautos. Some-se a isso a proposta de transparência, que maquiavelicamente vem bem a calhar neste momento de grandes devassas nas contas da Petrobras.

Bolsonaro é isso: uma proposta tosca e fajuta de autoritarismo para debelar o medo e incerteza que vislumbramos em relação ao futuro de nosso país. Cabe responder com intolerância à sua ideia de que não estupraria a colega porque ela não merecia: Bolsonaro, ninguém merece…


 

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