E o avião não caiu…

airplane– Você vai levar as crianças na escola amanhã?

– Por que?

– Vai cair o avião na Paulista! Não ficou sabendo?

Confesso que fiquei um pouco com medo. Receoso, pensava: “será que vai cair mesmo?”

Aí lembrei de um post que já estava rodando na internet havia um tempo. Um síndico alertava os moradores de seu prédio, onde o tal do avião iria cair segundo a previsão, sobre o possível incidente, e orientava os moradores que não ficassem no edifício durante a data. Os boatos diziam também que o dito vidente previra o acidente das Torres Gêmeas, dentre outros, o que aumentou sensivelmente a credibilidade de sua profecia.

Uma boa parte se dizia cético. Mas chegaram a mudar o número do voo. Trocaram também a aeronave. Na avenida mais famosa da metrópole um fuzuê de jornalistas e câmeras se formou na fatídica hora, esperando o tal do avião cair. Teve equipe de reportagem que embarcou no “voo da morte”, e no dia do suposto acontecimento foi registrado que muitas pessoas que trabalhavam na Paulista chegaram atrasadas ao serviço, por medo do acidente.

E o avião não caiu.

Guardadas as devidas proporções, o episódio lembra um pouco o de Orson Welles em 1938 nos Estados Unidos. Escritor habilidoso, elaborou “A Guerra dos Mundos”, que fora lida na época em forma de radionovela. Apesar de ter sido informado no começo do programa que se tratava de uma obra ficcional, muitos ouvintes ligaram o radio no meio do programa e escutaram uma série de chamadas dizendo que os Estados Unidos estavam sendo invadidos por alienígenas. Pânico tomou conta do país, com algumas pessoas tentando suicídio, evacuações de prédios comerciais e um homem falecendo de ataque cardíaco.

Sim, a informação tem poder. E a superstição, as vidências, o misticismo, têm a função de apaziguar a angústia que surge quando não há informação ou controle de alguma coisa. Quem não gostaria de ter o poder de prever e assim evitar um desastre aéreo? Apesar de muitos dizerem não acreditar em tais coisas, a superstição (e afins) é um fenômeno universal, natural e até certo ponto saudável do ser humano.

Verificou-se que no Reino Unido um terço dos ingleses já haviam ido a algum vidente para ter previsões sobre o seu futuro. Metade dos alemães acreditam em objetos da sorte, talismãs, etc. Em Hong-Kong muitos dos grandes bancos contratam videntes para acompanhar entrevistas de novos funcionários e emitir opiniões sobre o candidato. Há pesquisas que indicam que em diversos países o preço do apartamento localizado no 13o pavimento em geral é menor do que os outros imóveis do mesmo prédio; há pouca procura. Isso quando não se omite o número treze da numeração dos andares, pulando-se do 12o andar para o 14o, como ocorre em muitos prédios nos Estados Unidos.

Pessoas mais jovens tendem a ser mais supersticiosas, uma vez que são mais confrontadas com a dúvida sobre o seu futuro. A superstição serve para contornar a incerteza e a ansiedade sobre o destino. Em relação à diferença entre sexos, mulheres acreditam mais em astrologia do que homens. Também, atletas mulheres tendem a ter mais rituais de sorte antes de competições do que homens.

O ser humano nunca soube lidar muito bem com o desconhecido. Assim, clarividência, amuletos, rituais de sorte, mandingas e afins, são símbolos, códigos destinados a preencher o vazio de significado do incerto. Servem para dar a sensação de poder sobre o imprevisível, sobre o errático. Asseguram.

Apesar das evidências mostrarem que mais de 90% das previsões são erradas, elas continuam por aí. Afinal, quem não gosta de fantasiar, de imaginar ter controle sobre o destino?

Uma última observação: sensação maior de controle é dizer que o avião não caiu porque o número do voo foi alterado…

(P.S.: números da Megasena da virada por favor inbox. Comissão de 50%)

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