Racismo, sexismo e homofobia: intolerância e psicopatologia

hqdefaultO dia 20 de novembro de 1695 marcou a morte de Zumbi dos Palmares, e hoje é lembrado como o Dia da Consciência Negra. Apesar de muito já ter se debatido sobre o racismo, ainda assistimos a demonstrações do mesmo com certa frequência.

Manifestações de racismo, assim como aquelas de sexismo e homofobia, têm um cerne em comum: a intolerância. Esta por sua vez pode ser definida em geral como uma incapacidade ou falta de vontade para suportar perspectivas, crenças e práticas de outros. Intolerância também envolve o não reconhecimento e o desrespeito pelos direitos fundamentais e escolhas de outros.

Alguns pesquisadores sugerem que a intolerância, além de ter fatores sociais e culturais como geradores, pode ser sinal de psicopatologia, quando esta é levada ao extremo e causa disfunção social, gerando dor e sofrimento por negação de liberdade e igualdade de direitos a outros. Se por um lado a questão de ser psicopatológico ou não é bastante questionável, por outro lado o caráter reprovável destas atitudes é uma certeza. Não obstante, algumas teorias falam de traços comuns de uma estrutura de personalidade intolerante.

Um destes traços seria alterações na capacidade de troca de um indivíduo. Um importante fator para a formação do self é a capacidade de empatizar com e de se colocar no lugar de outros. Neste processo as atitudes dos outros influenciam e são incorporadas no conceito de self do individuo. Na adolescência a pessoa saudável irá ter incorporado diversos outros conceitos de si mesma e será capaz de considerar a perspectiva alheia e da sociedade. O indivíduo intolerante teria tido, por alguma razão, um repertório reduzido de interação neste sentido, e consequentemente seria incapaz de empatizar com outros diferentes dele, sendo assim também incapaz de entender ou interagir apropriadamente com grupos inteiros de indivíduos diferentes (1).

No que tange outras características do intolerante, se por um lado superioridade parece ser um traço integral do desenvolvimento humano, o intolerante parece ter ideias mais rígidas sobre a própria superioridade e sobre a inferioridade dos outros. Desta forma, estereótipos comumente presentes na cultura servirão de catalisador para que o intolerante reforce a ideia de filiação a determinado grupo (“os brancos”) e a ideia de aversão contra outro grupo (“os negros”). Este senso de pertencimento a um determinado grupo, em detrimento de outro, por outro lado também seria um reforço de poder e autoestima do indivíduo intolerante (“somos melhores que eles”). Esta proeminência auto-imposta reforça mecanismos de “bode expiatório” e ajuda a evitar angústias existenciais próprias, ao projetá-las para grupos externos. Fred J. Hanna cita que este é um meio de procurar status social que gera uma falsa superioridade e um meio ineficaz de se ganhar autoestima. Acrescenta que o racismo, por exemplo, está bastante ligado a uma necessidade prevalente de se sentir melhor ou superior aos outros.

Continuando a questão da autoestima, o indivíduo intolerante pode ter um senso de valor próprio tão restrito e frágil que passa a ignorar o grupo não tolerado. Se uma baixa autoestima estiver presente de maneira preponderante, o grupo de não tolerados pelo indivíduo pode aumentar e este pode agir com agressividade maior contra eles.

O artigo trata de intolerância em seu grau mais agudo, o racismo, a homofobia e o sexismo. Mas é evidente que podemos observar intolerância em menor grau fora destes âmbitos. Além disso, os autores defendem uma nova categoria diagnóstica, a de personalidade intolerante. A ideia é a de que algumas pessoas com transtorno de personalidade antissocial, por exemplo, causariam menos danos à sociedade do que outras extremamente intolerantes, que produziriam dor e sofrimento a outros por discriminação e preconceito gerado por ideias racistas, por exemplo.

Lendo a descrição do que seria uma personalidade intolerante, até conseguimos imaginar algumas pessoas que se enquadrariam neste funcionamento, algumas racistas, outras não. E é claro que dentre os racistas poderíamos achar pessoas diagnósticos de distúrbio de personalidade, como em qualquer outro lugar. Não seria exclusividade de pessoas com esta crença. O artigo desta forma é interessante ao trazer alguns traços comuns a certas pessoas intolerantes, presentes em grupos racistas, sexistas e homofóbicos. Não obstante, mais uma tipologia? Mais uma categoria? Mais um diagnóstico?

Soa-me como um furor curandis, a necessidade de classificar para tratar. O diagnóstico, por sua vez, traria certa desresponsabilização por deter tais crenças, e a necessidade de um tratamento (algo externo). Por isso prefiro acreditar que, antes de ser doença psiquiátrica, é, ao contrário, doença social.

Um bom dia 20 de novembro a todos.

 

Ref.: (1) Guindon, MH, Green, AG, Hanna, FJ. Intolerance and Psychopathology: Toward a General Diagnosis for Racism, Sexism, and Homophobia. Am J Orthopsychiatry 2003, 73(2):167-176.

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