Pedro vai votar – uma crônica sobre as eleições

urnaPedro era homem simples. Nasceu na periferia e lá se criou. O pai bebia, batia na mãe; mas ela se calava. Muitas vezes sobrava para ele, Pedro, também. Mas ele também se calava; não havia muito o que fazer. Pensava que era assim mesmo, só isso. Pedro cresceu deste modo.

Onde Pedro morava era perigoso. Ia de ônibus para a escola. Frequentemente ouvia o motorista conversar com o cobrador, e reclamar que ao menos uma vez na semana eram assaltados. Conversavam com certa revolta, mas no mais mostravam-se calmos. Pedro costumava pensar que não ligavam muito porque devia ser assim mesmo lá onde morava.

Mas gostava de ir à escola, de estudar, de aprender. Fazer conta, escrever, ler, decorar nomes de capitais de países, entender a história, etc. Cria que aquele que lhe explicava as coisas no giz e quadro verde era alguém especial. Mas seus colegas não pensavam o mesmo; ameaçavam o educador, vinham drogados nas aulas, conversavam alto e faziam piadas durante as mesmas, não tinham qualquer tipo de respeito por ele. Houve até caso onde agressão física se sucedeu, por um moleque que naquele dia resolvera se entupir de todas as substâncias psicotrópicas recreativas possíveis. Mas Pedro pensava que era assim mesmo. Pois também em outros lugares dos quais ouvia falar acontecia coisa semelhante.

Aí Pedro foi querer ser gente grande, quis entrar em uma grande faculdade. Não obstante, percebeu que seus estudos eram insuficientes. Também não teria dinheiro para pagar um bom cursinho. Desistiu. Pensou que deveria ser assim mesmo, pois conseguia contar nos dedos as pessoas que conhecia que tinham trilhado este caminho.

Pedro foi então trabalhar, enfrentar a vida. Logo arrumou emprego; corre pra cá, corre pra lá, busca isso, busca aquilo, aguenta o chefe. Pega trem lotado, trem atrasa, “tem gente no trilho…”, mais de uma hora pra chegar no serviço, todo mundo espremido, suado e retraído. Não tinha carteira registrada, pois havia feito um conchavo com o chefe para ganhar um pouquinho mais. O chefe enjoou-se, e Pedro do mesmo jeito que empregou-se desempregou-se. Como nada constava na carteira saiu de mãos abanando. Ficou bravo de início, mas depois pensou que as coisas deveriam ser assim mesmo, afinal, sempre ouvia histórias iguais.

Não tardou muito a arrumar outro trabalho. E logo que recebeu o primeiro salário, quis gastar tudo com o que mais havia sonhado. Mas logo desiludiu-se ao ver que não conseguiria bancar os bens de consumo que tanto almejava, cada vez mais caros que ficavam com o passar do tempo. Mas para tudo se dá um jeito, e diante de tamanhas opções de crédito e de parcelamento, foi seduzido pelo desejo e adquiriu as coisas que lhe faziam bem, comprometendo com isso boa parte do que ganhava por um dilatado período de tempo. Era um jeito de aplacar a abissal distância daqueles que tanto ganham, mesmo morando a poucos quilômetros de sua casa.

Para voltar a ter poder de compra arrumou um bico. Trabalhava, dia e noite, noite e dia, dia e noite. Acordava e trabalhava, trabalhava, trabalhava. E, de tanto trabalhar adoeceu. Procurou ajuda e descobriu que o “benefício” que a firma lhe dava intitulado “convênio médico” era igual ou pior que o SUS; prontos-socorros cheios, filas enormes de espera para marcar consulta. Pessoas insatisfeitas hostilizando médicos, enfermeiros e outros pela demora. Em um ímpeto de fúria quis tirar a limpo com a firma esta falsa história de plano de saúde; mas refletiu, e desistiu, pois as coisas deviam ser assim mesmo e de nada adiantaria sua queixa.

Pedro decidiu mudar de vida e passou em concurso público. Procurava estabilidade e queria fugir um pouco das armadilhas do emprego privado. Mas conheceu os cargos de confiança, pessoas que mandavam nele mas que não haviam feito concurso para o cargo. Conheceu os inúmeros boatos sobre conchavos feitos em licitações, para comprar isso, aquilo e ainda aquilo outro. Viu que acontecia lá também no microcosmo o que lia no macrocosmo dos noticiários. Mas pensou que deveria ser assim mesmo, uma vez que na televisão ele via diariamente estas coisas.

Um dia foi comprar jornal na rua. Viu o ciclista andando fora da faixa na contramão e sem capacete, viu o pedestre soberbo atravessando lentamente no meio da rua fora da zebra, viu o carro apressado ameaçando atropelar os pedestres na faixa. Cruzou a rua em um pequeno trote para que não fosse pego. Comprou o jornal e abriu-o: escândalos de desvio de dinheiro público, propina pra cá, propina pra lá, políticos corruptos, acusados e condenados sendo reeleitos.

Mas, após uma onda de protestos que varreu o país e quase impediu que um grande evento esportivo mundial ali acontecesse, veio então a eleição. Pedro pensou que esta seria uma boa oportunidade para mudar. Por um dia em cada quatro anos Pedro tem o poder de mudar o rumo das coisas. Viu então os três principais candidatos com chances de vencer a disputa, uma vez que não queria “jogar seu voto fora” e ter a sensação de derrota ao optar por alguém sem chance alguma de subir ao poder.

A que está lá agora era de esquerda. Fora até torturada pela extrema direita em tempos longevos, mas agora ocupa-se em insuflar a cúpula com colegas partidários, e faz vistas grossas às diversas denúncias de corrupção do partido.

A que também era de esquerda, era da turma daquela que está lá, mas não é mais. Aliou-se a banqueiros e diz querer fazer algo novo, misturando mais do mesmo.

O que quer passar a perna nas duas apresenta o mesmo discurso e trejeitos estereotipados dos companheiros de legenda, alguns envolvidos em suspeita de grandes desvios para a feitura do metrô, mas diz ser a nova aposta para a mudança.

Os três frequentam templos e igrejas e querem os votos dos fiéis. Os três esforçam-se para fazer passinhos de dança daquele mesmo povo que sofre com o caos do transporte lotado e da carência na saúde, em uma tentativa de aproximar-se dos que dão dinheiro aos impostos para depois ser desviado. Os três tem “doações” elevadas de “parceiros” suspeitos para suas campanhas.

Pedro ficou colérico por um segundo.

Mas depois parou e pensou: deve ser assim mesmo. Sempre foi.

Escolheu um dos três e votou; depois voltou para casa no metrô cheio, quase foi atropelado ao atravessar a rua, perto de casa foi assaltado, mas chegou em seu quarto, calou e dormiu.

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