Os discursos de ódio na internet

Na semana que passou assistimos ao depoimento da torcedora do Grêmio acusada de racismo. Vimos ela dar coletiva, vimos e revimos seus vídeos no estádio, assistimos à exclusão de seu time da competição. Mas, mais do que isso, presenciamos uma enxurrada de ofensas e ameaças a ela realizadas através da internet, o que fez com que sua família mudasse de cidade, com medo de alguma represália.

Que a moça é culpada de injúria racial e deve ser punida conforme a lei não restam dúvidas, as imagens são claras. Mas o que deve ser colocado em pauta também são as reações coléricas e extremadas tomadas contra a torcedora nas redes virtuais.

Diferentemente das relações do mundo real, as relações na internet são peculiares em dois aspectos: o anonimato e o alcance social. Decorre daí um dos importantes efeitos da rede que é a “desindividuação”. O termo, descrito por Festinger há mais de 50 anos, descreve um processo no qual comportamentos anti-normativos são tomados quando os indivíduos de um grupo não são vistos. Quando a desindividuação ocorre em geral há uma redução na capacidade de regular o próprio comportamento, uma tendência em reagir a estímulos com imediatismo, irracionalidade e com base nas próprias emoções, e uma diminuição na percepção do que os outros irão pensar sobre suas atitudes.

Escreve McKenna(1) que na internet comumente ocorrem situações que geram determinada tensão psicológica (uma notícia desagradável, um post que vá de encontro com suas idéias, por exemplo). “A pessoa pode então experimentar um processo de desindividuação e reagir com ferocidade, respondendo no calor da discussão com ataques à declaração ofensora (e seu autor) de maneira altamente volátil, agressiva e ofensiva.” Estas notícias ou posts são conhecidos como “flames” (chamas), de onde surgem as denominadas “flamewars”*.

A notícia da gremista acabou virando uma flame e gerando uma enorme discussão sobre a sua punição, mas com certa freqüência deu lugar também a um discurso de ódio contra ela. No entanto, tomando posse destes conceitos, vemos que não é apenas no caso da gremista que observamos reações raivosas de toda sorte, mas também nas atuais discussões políticas, em grupos de alunos (e ex-alunos) de faculdades, discussões sobre temas polêmicos e outras inúmeras situações nas redes sociais. Assim como a notícia da torcedora, acabam estes lugares sendo muitas vezes válvulas de escape para sentimentos hostis, quando não são eles mesmos a catalisarem tais emoções.

Ainda na mesma linha mas olhando-se para o ponto mais extremo da curva, vemos que os “discursos de ódio” aumentaram com a disseminação da internet, facilitados pelo anonimato e alcance citados acima, conforme mostram diversas pesquisas. (2) Estudos mostram que eles contribuem sobremaneira para a transposição desta agressividade do mundo virtual para o mundo real.

Assim, acaba-se muitas vezes combatendo os discursos de ódio (como o racismo) com mais discursos de ódio, e paga-se com o lado inverso da mesma moeda a intolerância ao outro ser humano.

 

* Termo sem tradução exata para o português, que serve para designar discussões hostis que ocorrem via internet

  1. McKenna KYA, Bargh JA. Plan 9 From Cyberspace: The Implications of the Internet for Personality and Social Psychology. Pers Soc Psychol Rev 2000, 4:57.
  1. Tsesis A. Hate in Cyberspace: Regulating Hate Speech on the Internet. San Diego Law Review 2001, 38.

 

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